Reposicionamento de fármacos

O caso da cloroquina e o COVID-19


Juliana Mozer Sciani e Leonardo Pereira de Lima



O uso de fármacos já existentes para doenças que não tem cura não é algo novo. Esse processo, conhecido como reposicionamento de fármacos, é utilizado para reduzir o custo e tempo de pesquisa e desenvolvimento de um novo medicamento. Mas para ele chegar à população não é tão fácil assim...


Só para uma comparação, para o desenvolvimento de um novo fármaco, muitas etapas são necessárias. A primeira fase é a pesquisa, em que se faz a descoberta de uma nova molécula ou um novo mecanismo de ação para uma determinada doença. Nesta fase, vários testes em laboratório são feitos para comprovar que a molécula funciona (ainda em modelos "in vitro") e também se estuda modificações do composto para melhoria da atividade, busca de uma formulação.


Em seguida, a molécula é testada em animais, e nessa fase é avaliado se o protótipo pode causar algum efeito indesejado (se pode ser tóxico), como ele deve ser administrado (se será injetado ou comprimido), em qual dose, e também como a molécula se comporta em um organismo.


Se houver comprovação da eficácia e segurança, os testes se prosseguem em humanos, em 3 fases: na primeira voluntários saudáveis (sem a doença em avaliação) são testados para verificar se o futuro medicamento causa qualquer efeito não desejável (segurança); na segunda poucos voluntários portadores da doença são avaliados para avaliação da segurança e comprovação de que o medicamento funciona (eficácia contra a doença); a terceira fase é feita com testes em número maior de voluntários com a doença.


Após cada uma dessas etapas, um documento é enviado à agência regulatória (no Brasil, a ANVISA), que avalia e concede a permissão para prosseguir os estudos.


Esse processo todo dura em média de 10 a 15 anos, e bilhões de reais são gastos ao todo, com risco de chegar à última fase e se observar algum efeito inesperado. Da mesma forma, é comum a pesquisa ser abandonada em alguma das fases por falta de segurança ou eficácia.


Visando reduzir o custo e tempo desse processo, o reposicionamento de fármacos é uma alternativa, que utiliza fármacos já conhecidos e aprovados por agências regulatórias. Assim, o medicamento já passou por testes toxicológicos e de segurança.

Dessa forma, muitas dessas etapas são eliminadas ou encurtadas, e o tempo para o desenvolvimento se torna muito menor, com foco na nova doença em estudo.


Essa tem sido uma saída para diversas doenças. Nós, por exemplo, estamos trabalhando com derivados de triazois, conhecidos antifúngicos, para o tratamento da anemia falciforme.

Para doenças negligenciadas o reposicionamento de fármacos é uma excelente estratégia, em que pouco se é investido, ou ainda em doenças emergenciais, como a que estamos vivenciando - a pandemia pelo novo coronavírus.


Exemplo de reposicionamento de um fármaco e seu novo uso (1).



Para o COVID-19, ao menos 12 medicamentos já conhecidos estão sendo testados, uma vez que não existe tratamento específico para esse vírus (2).

A cloroquina, medicamento muito comentado no momento, demonstrou bloqueio da infecção viral em testes laboratoriais, ou seja, ainda não se tem comprovação da eficácia em humanos. Da mesma forma, o remdesivir também inibiu a infecção (3; 4).


Apesar de promissores, esses medicamentos ainda devem ser testados em fases clínicas, para que se tenha certeza que o medicamento funciona em pacientes humanos portadores do vírus, e principalmente que não cause qualquer efeito adverso, que possa agravar o quadro de pacientes que já estão sofrendo da doença.


Felizmente esses testes estão em andamento em vários centros do mundo, mas temos que aguardar os resultados para podermos fazer o uso seguro dessa alternativa.




Referências:


1 - Maiara Maria Romanelli, Thais Alves da Costa-Silva, Edezio Cunha-Junior, Daiane Dias Ferreira, Juliana M. Guerra, Andres Jimenez Galisteo, Jr., Erika Gracielle Pinto, Leandro R. S. Barbosa, Eduardo Caio Torres-Santos, Andre Gustavo Tempone. Sertraline Delivered in Phosphatidylserine Liposomes Is Effective in an Experimental Model of Visceral Leishmaniasis.Front Cell Infect Microbiol. 2019 Oct 29;9:353.


2 - Cynthia Liu, Qiongqiong Zhou, Yingzhu Li, Linda V. Garner, Steve P. Watkins, Linda J. Carter, Jeffrey Smoot, Anne C. Gregg, Angela D. Daniels, Susan Jervey, Dana Albaiu. Research and Development on Therapeutic Agents and Vaccines for COVID-19 and Related Human Coronavirus Diseases. ACS Cent. Sci. 2020, 6, 3, 315-331.


3 - Deyin Guo. Old Weapon for New Enemy: Drug Repurposing for Treatment of Newly Emerging Viral Diseases. Virol Sin. 2020 Feb 11 : 1–3.


4 - Manli Wang, Ruiyuan Cao, Leike Zhang, Xinglou Yang, Jia Liu, Mingyue Xu, Zhengli Shi, Zhihong Hu, Wu Zhong, Gengfu Xiao. Remdesivir and chloroquine effectively inhibit the recently emerged novel coronavirus (2019-nCoV) in vitro. Cell Res. 2020 Mar;30(3):269-271.














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